quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Memórias do submundo", de Rodger Klingler

MEMÓRIAS DO SUBMUNDO
Rodger Klinger
382 páginas
Editora BestSeller

O trecho na contracapa:

"Embora eu mantivesse os dentes firmemente trincados, deixei escapar um leve gemido.

- Olha só, o alemãozinho está gostando - disse odiosamente um dos policiais.

Escarnecendo, ainda me acusavam de estar gostando. A "revista corporal" doía demais. Não podia me revoltar.

Mais ou menos uma hora antes, eu havia sido descoberto no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, ao tentar sair do país com 1kg de cocaína. Havia apostado muito alto... e perdido!"

Apesar da capa rosa de extremo mal-gosto e do trecho na contracapa que foi retirado do livro e colocado em um contexto que faz parecer um conto gay infame da Internet, Memórias do submundo é um livro que tem uma história com um ponto muito interessante sobre o Brasil. Vou explicar um pouco essa relação do autor alemão com nosso país.

Como vocês perceberam pelo título do livro, este é um livre de memórias. As memórias desse livro são de Rodger, um jovem alemão na época, fascinado pelo Brasil. Ele trabalhava na Alemanha o suficiente para juntar uma quantia de dinheiro e viajar para o Rio de Janeiro. O "gringo", como é costumeiramente chamado ao longo do livro, logo fica agraciado com as belas praias, mulheres, a comida deliciosa, o jeito alegre das pessoas e até mesmo com a facilidade do sexo. Mais cedo ou mais tarde acaba envolvendo-se com o mundo das drogas. É quando ele começar a conhecer o lado sombrio da capital carioca.

Em uma dessas viagens, teve a ideia de contrabandear cocaína para a Alemanha, um país que, segundo os relatos dele, é extremamente difícil ter contato com drogas. O que ele não contava é que seu plano mirabolante acabasse falhando, tendo como resultado ser preso, sendo julgado a 4 anos de prisão. É a partir daí que o livro nos apresenta o convívio dele dentre das cadeias brasileiras, um tormento que ele nos relato com detalhes.

O livro é divido em quatro partes, sendo que a primeira é sobre como foi ter passado as férias como turista no Rio de Janeiro, e as outras três partes falam sobre os presídios nos quais ele passou. Como nós brasileiros já imaginávamos, as cadeias daqui não tem um pingo de piedade com os presos, nós ficamos sabendo as péssimas condições que eles vivem, além da dura sobrevivem que enfrentam lá. Prostituição, drogas, brigas, doenças e mortes acontecem sem que ninguém se importe. Essas brigas acontecem tanto entre os próprios presos quanto pela parte da Polícia Militar. E os relatos realmente nos são espantosos.

O mais interessante disso tudo, como falei acima, é ver o relato sendo contado de um cara que teve uma família, que nasceu na Alemanha (um país com ótima condição de viver), que completou os estudos, que tinha estabilidade nos empregos, e provavelmente teria um bom futuro pela frente, acabar sendo preso. Ou seja, é alguém que nunca passou por dificuldades na vida, por isso muito das reflexões que Rodger faz, principalmente sobre a pobreza, são interessantes. Diferente do que muitos pensam, ele não trata a pobreza de uma forma esnobe, e sim que reconhece o sofrimento que os brasileiros passam, e que mesmo com todos os problemas, sempre conseguem estar animados ou com planos para viver. Ele acaba conhecendo os mais diferentes tipos de perigo, mas também os mais diferentes tipos de pessoa, como o professor Arthur, uma pessoa dedicada que voluntariamente queria ajudar e ensinar os presos. Como ele mesmo fala, o professor foi "a luz no meio do escuro".

Para mim, a principal vantagem do livro foi ter despertado em mim a vontade de ler outras obras relacionadas as cadeias brasileiras.

Sobre o autor

Rodger Klinger nasceu em Nuremberg, em 1964. Atualmente vive em Ingolstadt, próximo Munique, tem uma filha e trabalha como roteirista. Lançou na Alemanha, em 2005, o livro Das Leben der Anderen [A Vida dos Demais], sob o pseudônimo de Calvin Gomez. O seu segundo livro é Memórias do submundo, o primeiro lançado no Brasil. Mesmo sendo preso aqui, diz que ainda adora o país e que um dia ainda quer poder visitar.

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