segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago

Já estamos em Novembro e eu não completei ainda meu Desafio 10 livros para 2016. E neste desafio estava incluso ler o famoso escritor José Saramago. Como comentei em um post anterior, conheci a adaptação em filme do Fernando Meirelles antes da obra literária. Talvez por este motivo, não tive grandes surpresas ao longo da leitura, já que o filme é uma adaptação bem fiel à sua contraparte literária.


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
José Saramago
312 páginas
Editora Companhia das Letras

A história começa revelando que um homem, parado no semáforo com seu carro, acaba ficando cego instantaneamente, sem nenhum motivo aparente. A cegueira que ele tem não é normal, é uma cegueira branca, onde ele enxerga tudo como se estivesse mergulhado em leite. Em uma consulta médica, descobre que está tudo aparentemente normal, e volta para casa esperando fazer mais exames. Conforme o tempo passa, a cegueira vai se manifestando em mais pessoas, e logo uma grande quantidade da população parece estar "infectada" com a cegueira leitosa, fazendo com que o governo tome providências e tenha que arranjar um lugar para que essas pessoas fiquem. O local onde grande parte da trama se passa é um manicômio, e a protagonista (por assim dizer) é a esposa do doutor oftalmologista, que é a única personagem da história que não acabou cegando.

Esse livro possui uma história que devemos ter uma certa suspensão de descrença com tudo que é mostrado. Não é uma obra de ficção científica, você não verá termos complicados, não verá cientistas indo em busca de uma cura ou teorias mirabolantes. O fato da população ser atingida por uma cegueira é simplesmente o motivo que o autor encontrou para contar uma trama que, em poucas palavras, fala sobre como é a fraqueza emocional, psicológica e racional do ser humano. O ponto principal da história é até quando o ser humano consegue manter sua integridade depois de uma grande desgraça? As respostas do livro não são nada animadoras.

OS CONFLITOS

Com medo que o contagio se espalhe, as pessoas cegas que estão presas no manicômio não podem sair de jeito nenhum, sofrendo até mesmo a punição de morte por soldados que ficam protegendo as saídas. Eles recebem comida em caixas em horários determinados, e também estão jogados à própria sorte, visto que o governo não enviará ninguém para auxiliá-los ali dentro. Com isso, as pessoas se veem obrigadas a criarem suas próprias regras de convívio, principalmente quando mais pessoas são enviadas para o manicômio. Não preciso nem dizer que essa convivência harmoniosa não existirá. O livro deixa bem claro que, não é porque uma pessoa ficou cega que ela se torna má, e sim que se a pessoa já era um monstro antes, a catástrofe só fez que com que ela liberte todo o comportamento horrível.

Também é trabalhado muito a questão do feminismo, não apenas pela protagonista ser mulher, mas também pelas situações que elas passam. Em um momento de crise, fica óbvio que as mulheres são as que mais sofrem, e uma das cenas mais pesadas envolve justamente a forma como elas são tratadas. É bacana ver que, de certa forma, elas se mantém unidas, tentando manter a civilidade, enquanto os homens são os geradores de conflito. E como eu disse, o escritor apenas tentou levar pontos que são reflexo da sociedade, e o machismo é um ponto que fica explicito na obra.

CONSIDERAÇÕES

No livro nenhum dos personagens possui nome, são todos chamados por algum adjetivo, como o doutor, o homem velho, a mulher de óculos escuros, a criança estrábica, e por aí vai. E tem um detalhe, os diálogos não são composto por um parágrafo, travessão e então a frase. As conversas dos personagens todas se passam em um mesmo parágrafo, ou até em uma única frase, dividindo quem disse o quê apenas por uma palavra que começa em maiúscula. Isso ao longo da leitura acaba cansando um pouco, pois são parágrafos e mais parágrafos enormes o livro inteiro. Mas eu compreendo o autor quis fazer, ele quis passar ao leitor a sensação de ficar perdido, como a limitação que um cego teria. Em geral gostei da escrita de Saramago, ele escreve de forma bem clara, acaba se tornando interessante, e ao mesmo tempo me despertou a curiosidade para ler outros de seus livros.

É uma obra que precisa ser lida, possui temas importantes, e que de certa forma nos faz perceber que a maldade no ser humano é maior que imaginamos. É um livro pesado, e recomendo aos leitores que leiam quando estiverem em um momento bom da vida, pois algumas cenas podem traumatizar pessoas sensíveis. São 312 páginas de puro sofrimento, estejam preparados, o próprio Saramago disse que esse foi um livro difícil de ser escrito.

Sobre o autor


José Saramago nasceu em 1922, de uma família de camponeses na província do Ribatejo, em Portugal. Exerceu diversas profissões - como serralheiro, desenhista, funcionário público e jornalista - antes de se dedicar só à literatura. Ganhou o Prêmio Nobel em 1998, escreveu algumas das obras mais relevantes do romance contemporâneo. Saramago faleceu em Lanzarote, nas ilhas Canárias, em 2010.

0 comentários:

Postar um comentário