terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Personagem do mês: Kevin Khatchadourian

No post do livro Precisamos Falar Sobre o Kevin, comentei que considero a obra muito mais sobre a mãe do que o filho. Mas, como uma das coisas mais bacanas sobre a história é descobrir como Kevin se tornou o que é, decidi que ele deveria ser o Persoangem do Mês. Antes de começar, recomendo que você clique no link e veja meu resumo e opinião da obra de Lionel Shriver, o post atual é uma continuação do que escrevi anteriormente. Não vou entrar em muitos detalhes sobre todos os acontecimentos e maldades que Kevin cometeu, porque seria muita coisa. Focarei na relação com sua mãe, que é a parte mais polêmica e interessante.


AVISO! O texto baixo contém MUITOS spoilers!

Os relatos de Eva são a única coisa que temos de base para sabermos sobre o comportamento de Kevin, e se eles estiverem corretos, o personagem já era uma pessoa apática desde recém-nascido. Ou seja, não tinha interesse em nada, achava tudo "besta" (como ele mesmo se referia), não gostava de ninguém e ainda por cima vivia se metendo em eventos bizarros. Desde pequeno aprendeu a ser manipulador, sabia muito bem que suas ações eram imprudentes ou ilegais, e até mesmo condenáveis pelos outros, mas desconsiderava tal fato com uma indiferença assustadora. Tudo na convivência com Kevin era complicada, e isso vai se tornando pior enquanto cresce, até o ponto que resolve assassinar diversas colegas na escola em que estuda. O que chama a atenção é como ele era extremamente inteligente, porém sempre usava a máscara de garoto normal, tentando ser um aluno mediano.

Se aparentemente Kevin sempre foi problemático, é difícil dizer quando começou sua maldade. Ao que tudo indica, ele já tinha pré-disposição genética a se tornar um psicopata. Nestes casos, não é possível dizer quando um criança com traços de psicopatia vai crescer e se tornar alguém que trapaceia para subir na empresa na qual trabalha, ou quando vai se tornar um adolescente que comente assassinatos em escolas. A educação dos pais pode, ou não, ter influência ou agravantes na situação, e é nisso que vou me concentrar aqui. Para quem terminou o livro, notou o quanto Kevin tinha uma relação antagônica com sua mãe. Ele via um alvo nela, e fazia de tudo para deixá-la desconfortável, paranoica, e até com medo.


Muitos concluem que, como Eva nunca quis ser mãe, ela não deu amor e carinho o suficiente para o filho. O fato dela sempre ser desconfiada que Kevin era culpado de tudo também poderia ser considerado uma forma de abuso. Porém, tenho a impressão que Eva tentou, sim, criar uma relação de amor com a criança, e em nenhuma parte desistiu disso. Um momento que representa esse esforço é quando Kevin fica doente, e ela o cuida com todos os mimos. Inclusive, a cena é descrita como sendo um dos raros casos em que Kevin foi realmente sincero, e ele gostava de Eva, mesmo que nunca tivesse admitido antes. É legítimo citar também Celia, irmã de Kevin, que teve a mesma educação que o irmão, e cresceu uma garota completamente normal, sem nenhum traço de psicopatia.

Para entendermos os motivos de Kevin ser um indivíduo com tanta raiva guardada dentro de si, com desejos de cometer maldades sem nenhum remorso, devemos refletir o jeito como ele pensa. Kevin não via o mundo como nós vimos, para ele o mundo era um lugar chato e monótono. Ele não tinha uma grande paixão, ele não tinha alguma coisa com a qual dedicar seu tempo. O próprio deve ter chegado a essa mesma dedução, e agregou isso como parte de sua personalidade, ao ponto de afastar e excluir qualquer coisa que pudesse vir a ser de seu interesse. Kevin também criou uma aversão a qualquer ser humano que tivesse um objetivo de vida, uma coisa pela qual gostasse muito, ou almejasse alcançar. As principais vítimas de seu massacre foram justamente alunos que possuíam talento, que eram animados em falar sobre algum assunto específico, ou que se preparavam para suas carreiras no futuro.


No caso do pai, Franklin, o motivo de sua morte teria sido a maneira afetuosa, cheia de artifícios, que tratava o filho, e que causava repulsa no mesmo. Segundo Kevin: "Ele era ligado numa espécie de fantasia da Liga Infantil de beisebol, ficou congelado lá nos anos cinquenta. [...] Então, quem é que ele amava? Algum garoto do Happy Days, não eu." Já o motivo de detestar Celia seria o estilo frágil da menina: "Não quero jogar frisbee no quintal nem outra partida de Banco Imobiliário com uma anã lamurienta, cheia de frescuras e com um olho só."  Mas, acima de tudo, talvez ele tenha matado o pai e a irmã justamente para atingir Eva, pois ela se dedicava a a família, eles eram importantes em sua vida, e os amava acima de tudo. E, como expliquei antes, Kevin odiava quem tivesse um objetivo de vida. Isso pode ser confirmado no seguinte trecho, logo após Eva ver o filho preso dentro do carro policial, pelo crime que cometeu: "No entanto, quando visualizo agora o rosto dele pela janela traseira, também me lembro de algo mais. Ele estava procurando. Buscava alguma coisa no meu rosto. Buscou-a com muito cuidado e afinco, depois reclinou-se um pouco no banco. O que quer que estivesse procurando, não o havia encontrado, e também isso pareceu deixá-lo satisfeito, de algum modo. Ele não sorriu. Mas bem que poderia ter sorrido." Podemos ter muitas interpretações do que Kevin estava procurando ao olhar para a mãe, mas na minha teoria ele queria saber se Eva já tinha descoberto, ou não, as mortes de Franklin e Celia que cometeu em casa (um incidente que, na verdade, ela só descobriria horas depois). Se Eva já soubesse, notavelmente estaria com uma expressão ainda mais perturbada, e daria mais satisfação a Kevin ver a mãe sofrer.

Eva foi poupada porque Kevin gostava dela, não que chegasse ao nível de amar, mas sentia um respeito mútuo. A mão era a única pessoa que o compreendia, e que sabia de sua verdadeira faceta, além de respeitar seu espaço, sem projetar uma visão sobre quem Kevin devia ser. Também notei uma certa admiração, e até orgulho, que é reforçado pelos trechos: “Os terapeutas daqui passam o dia inteiro tentando me fazer desancar a mulher e eu já estou ficando meio cansado disso, se você quer bem saber.” [...] “Ela andou pelo mundo inteiro, sabia? Quase não dá para dizer o nome de um país de onde ela não tenha uma camiseta. Ela fundou sua própria empresa. Entre em qualquer livraria por aí que você vai ver a série dela. Guia A Wing & a Prayer de Cafundós Fedorentos no Exterior, sabe qual é? Eu costumava rodar pela Barnes and Noble no shopping, só pra olhar pra todos aqueles livros. Muito legal.”


No final, no derradeiro último encontro mostrado entre os dois, antes de Kevin ser levado à uma prisão de adultos, Eva questiona o motivo do massacre que o filho cometeu. A seguinte resposta está no trecho: "Eu achava que sabia”, respondeu, taciturno. “Agora, não tenho tanta certeza." Será que Kevin sentiu algum remorso no tempo que esteve preso, ou só estava fingindo para a mãe? São várias as hipóteses, mas sem conclusões. O livro acaba em seguida com Eva se perguntando se foi ou não a causadora de todos os problemas, e chegando a conclusão que isso não faz diferença, pois não conseguiria desfazer todo os traumas.

Minha consideração final é que, mesmo Kevin sendo um personagem fascinante, ele também é um pouco ilusório. Não acredito que se a história fosse real aconteceria exatamente dessa forma. As imagens do post foram retirados do filme, que ainda não vi, mas estou curioso para ver. Espero ter ajudado quem não entendeu completamente essa obra incrível. Quem leu o livro e teve outras teorias sobre essa fascinante discussão, não deixe de falar nos comentários! 

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