domingo, 25 de dezembro de 2016

"Precisamos Falar sobre o Kevin", Lionel Shriver

Já vou dizendo de instantâneo que meu livro favorito desse ano foi justamente essa obra incrível escrita pela Lionel Shriver. O livro aborda um dos temas mais tabus da atualidade: a maternidade indesejada. E não apenas isso, vai nos contar a história de uma criança problemática, que chega ao ponto de cometer assassinatos em sua escola. A sinopse que fiz não é um spoiler, pois ficamos sabendo disso logo no final do primeiro capítulo.


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN
Lionel Shriver
464 páginas
Editora Intrínseca

A protagonista, e narradora, é Eva Khatchadourian, uma mulher que vai nos relatar todos os fatos de sua vida por meio de cartas ao seu marido. Cada capítulo é equivalente a uma carta, e a autora teve o cuidado de ir revelando a trama aos poucos. Talvez pelos temas pesados, a escritora optou por diluir os acontecimentos principais, com trechos onde vai falar sobre o cotidiano de Eva, seus comentários das notícias da época, e sua visão crítica dos Estados Unidos. Eu gostei disso, principalmente porque Eva tem uma visão muito única sobre a vida, e o modo como ela encara as coisas. Na minha opinião, essa diluição da trama não afetou em nada, e sim acrescentou muita coisa, pois sabemos ainda mais sobre a protagonista, o que é fundamental para compreendermos as camadas da história.

Logo no começo descobrimos que Eva é uma americana com descendência armênica, uma mulher independente, que faz muitas viagens, que abriu uma empresa onde escreve guias para turistas, e que com muito esforço conseguiu ficar rica. Ela acaba conhecendo Franklin Plaskett, um homem loiro, de olhos azuis, com corpo viril, que trabalha como fotógrafo freelancer e que é extremamente americano patriota. É estranho ver Eva, uma americana que não se sente confortável em seu país, se apaixonando justamente por um americano convicto, mas a escritora nos dá motivos para entender porque ela gosta tanto do marido. Esse início da relação deles, se conhecendo, casando, indo morar juntos em um apartamento, é a parte mais calma do livro. O que vem em seguida é tenso, o começo do desmoronamento em suas vidas.

Eva e Franklin levam uma vida feliz, porém Franklin depois de alguns anos casado se sente incompleto. E então que surge dele a proposta de terem um filho. Dele, não dela, de imediato já sabemos que Eva não é nem um pouco empolgada de engravidar e ter uma criança. Entretanto, com toda a insistência do marido, Eva acaba cedendo e resolve investir em uma nova fase de sua vida sendo mãe. A missão não é nem um pouco fácil, Eva na gravidez não se sente confortável, o parto é difícil, e logo depois do bebê nascer ela sente uma enorme tristeza. Porém vai se agravar quando perceber que seu filho, recém-nascido, a rejeita de todos os jeitos: chora quando está perto dela, não quer mamar seu leite e parece estar com expressão de desgosto quando está em seu colo. A única pessoa, aparentemente, que Kevin não rejeita é o pai. Essa aversão que mãe e filho sentem um pelo outro só aumentará com o tempo, de uma forma até mesmo antagônica.

Kevin é uma criança que não gosta de nada, não sente empatia pelas pessoas. A mãe até tenta se dar bem com o garoto, mas não obtém nenhum resultado. Quando Kevin acaba se envolvendo, direta ou indiretamente, em momentos estranhos (para o dizer o mínimo), Eva fica preocupada. A mãe percebe, todo tempo, que seu filho comete maldades, e não sente nenhum remorso por isso. Pior: ele é manipulador, sabe muito bem como influenciar as pessoas, ou assustá-las, e pouco a pouco vai dominando com sua presença. O pai, por outro lado, não percebe nada, ou finge não perceber, e ainda considera o menino um anjinho, sempre defendendo ele. Franklin tenta ser o pai bondoso, zeloso, que quer ser o melhor do mundo; mas não percebe que a predileção de seu filho por ele não passa de um fingimento, de uma atuação, e que na verdade Kevin também o detesta com todas as forças.

Essa opinião conflitiva do casal, sobre quem é Kevin, vai criar rachaduras no casamento. Com certeza não concordo sempre com Eva, e tenho plena consciência que não simpatizo com Kevin, mas de todos considero o pai o pior. Em um momento Franklin toma a decisão própria de comprar uma casa no interior e de abandonarem seu apartamento em New York, com a esperança de um bom ambiente familiar. A grande questão é que ele toma a decisão sozinho, sem consultar a esposa. E é Eva quem tem que abandonar a carreira, é ela que não tem opção de continuar sendo mãe sem abdicar de seus sonhos. Ou então até tinha opção, a de abdicar os desejos do marido, e caso ele não quisesse ceder, o melhor seria a separação. Porém não é o que vemos acontecer, e é isso que não consigo gostar em Eva, sua submissão em aceitar tudo o que o marido diz. Claro que a sociedade tem uma parcela de culpa na forma que influencia esse pensamento de passividade, mas acredito realmente que Eva era apaixonada por Franklin incondicionalmente; e ele, pelo contrário, não respondia esse amor incondicional.

O livro funciona tão bem por conseguir discutir (e quebrar) de forma tão interessante e inteligente os vários mitos que a sociedade nos impõe. Os mitos quebrados são: a questão da mulher só ser feliz casada e com filhos, que famílias felizes como em comerciais de margarina não existem, que filhos nem sempre são uma bênção, e que o amor maternal não é instintivo. Se prestarmos atenção, o livro é muito mais sobre a mãe do que o filho. Depois do massacre de Kevin, a sociedade vai culpar inteiramente a mãe, ela que vai sofrer as consequências sozinha. O fato de Kevin ser um assassino psicopata é uma forma de atrair o público a se interessar por esses temas maternais. Não vou falar sobre a psicopatia de Kevin, ou se sua mãe é ou não a culpada pelo que aconteceu (mas já deixo claro de antemão que não a acho culpada), principalmente porque teria que entrar em detalhes da história, e não quero estragar a surpresa de quem tiver interesse em ler a obra. Escrevi um post específico sobre isso, no Personagem do Mês, falando exclusivamente da relação de Kevin com Eva!

A escrita de Lionel Shriver é maravilhosa, e a forma como ela fisga o leitor é espantosa. Estou com uma enorme vontade de ler outras coisas dela, o que com certeza farei. Também pretendo ver o filme com o Ezra Miller e a Tilda Swinton, pois adoro os dois. Bem, encerro por aqui o post de um livro que já entrou para minha lista de livros favoritos da vida.

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