sábado, 16 de dezembro de 2017

"Simon vs. a Agenda Homo Sapiens", de Becky Albertalli

Pela primeira vez encontro um livro YA ("Young Adult", ou em bom português, jovem adulto) que consigo gostar. Sim, o livro tem suas precariedades, mas vesti minha capa de adolescente e adentrei a leitura. A trama vai ser adaptada para filme ano que vem, e aqui você descobre o que achei desta história (quase) inusitada.


SIMON VS. A AGENDA HOMO SAPIENS
Becky Albertalli
272 páginas
Editora Intrínseca

Poderia ser uma típica comédia romântica se não fosse o fato do protagonista, o Simon do título, ser gay. O personagem já sabe que gosta de rapazes e está tentando sair fora do armário para o mundo. Não é a premissa mais original de todos os tempos, mas como foi um livro best-seller, e como raramente vemos temas assim fazendo sucesso com o grande público, resolvi dar uma chance! Outro motivo para ler foi que Greg Berlanti (o produtor-executivo das seríes de super-herói da CW) vai dirigir o filme! E como sou fã do trabalho de Berlanti tinha que conferir quais surpresas o livro reservavam.

O livro não é um drama completo, nem mesmo uma comédia exorbitante, na verdade fica transitando entre os dois estilos para nos contar uma história sobre um menino comum, mas com uma trama bem real. Simon é um adolescente que secretamente se corresponde por e-mail com 'Blue', um garoto que ele conhece na internet, e que vive o mesmo drama que ele: ser gay não assumido. Ambos os garotos estudam na mesma escola, mas escondem suas identidades com outros nomes, e nunca tiveram coragem de se revelarem na vida real. Até o momento que Martin, um garoto da escola, descobre as trocas de mensagens de Simon, e resolve chantagear o colega para se aproximar de Abby, uma garota amiga de Simon. Sim, a premissa parece clichê, mas não é tão previsível assim.

Martin não é o típico valentão, na verdade parece mais o nerd meio atrapalhado que quer ser o engraçado da turma. O grupo de amigos de Simon é formado por Abby, Leah e Nick, e possuem os típicos problemas de brigas internas entre amigos: ciúme, rivalidade, sentimento de ser excluído. Sem contar os amigos dos amigos, que são aquelas típicas pessoas que você vê o tempo todo na rodinha, mas nunca conversa direito com eles. Neste caso incluem os amigos do time de futebol do Nick, como Garret e Bram. A família de Simon parece ser bem aceitável com diversidade, mas ainda não deixa de ter problemas. O pai é o típico cara que quer ser engraçadinho e no fim das contas só é mala, enquanto a mãe é uma psicóloga esquisita e obcecada com os filhos. Nora é a irmã mais nova e Alice a mais velha (que não mora mais com eles), e são as mais normais.

Veremos pela ótica de Simon as alegrias, tristeza e frustrações da adolescência, e o interessante é a história ser muito verdadeira, sem ter um pano de fundo exagerado. A troca de e-mails entre Simon e Blue acabam se tornando um desabafo sobre os cotidianos dos dois, se transformando em uma espécie de diário, até que em algum momento os dois acabam flertando um com outro e a vontade de se conhecerem na vida real se torna maior. Essa fixação fica tão gigante que Simon tenta descobrir quem é Blue, e imagina que seja Cal Price, um garoto que é seu colega durante os ensaios de teatro, e por quem ele tem um crush.

Não é surpresa para ninguém que Simon vai se assumir no fim das contas, e neste ponto a autora não tentou transformar tudo em um drama gigantesco, mas vai mostrar sim que o bullying existe e o quanto é um problema, e como algo que devia ser tratado com naturalidade se transforma em um evento descomedido. Existem alguns diálogos que Simon faz que são sacadas geniais e que vão gerar algumas risadas, é um livro ótimo para quando se está de mau-humor! Em geral o livro é leve e de certa forma encantador, de um jeito que é até capaz de fazer você explodir de fofura! Em algum momento refleti que parecia Disney (inclusive eles chegam a mencionar isso no livro!), mas me dei conta que precisamos deste tipo de história, já que o normal neste caso é termos em sua maioria tramas tristes ou com final trágico.

Mas agora precisamos falar sobre os pontos negativos, sim, eles existem! Até entendo o público para qual o livro é voltado, e por isso a escrita é bem acessível, mas ficou simples demais, em algumas partes ela poderia ter elaborado mais a escrita para descrever as cenas. Outro problema é que em alguns momentos considerei o Simon excessivamente ingênuo, eu até entenderia se fosse um garoto de 13 anos ou mais jovem, mas estamos falando de um garoto de 17 anos, quase um adulto! Mas falarei mais sobre isso abaixo, na parte dos spoilers!

Se você ficou interessado pelo que contei no post, é um livro que recomendo fortemente. Deixe de lado seu preconceito contra livros YAs (ou com protagonistas gays) e dê uma chance! Foi uma das boas surpresas do ano e conseguiu me deixar animado para o filme, que estreia em 2018 e você pode conferir o trailer aqui. Espero que Greg Berlanti acerte e seja um sucesso!

SPOILERS! Só continue lendo se tiver lido o livro. Quem tiver curiosidade para saber minha opinião sobre em mais detalhes continue lendo abaixo, quem não leu volte só depois de ler e venha aqui conversar comigo!

O pior capítulo ao meu ver é o 28, em que a ingenuidade de Simon é levada ao extremo. Ele vai junto com amigos a um restaurante/bar gay, onde conversa com um cara que nunca conheceu antes e ainda é levado para uma roda de pessoas que nunca viu na vida. Acaba se embebedando, falando muitas besteiras e ainda por cima quando chega em casa temos a cena mais vergonha alheia do livro com os pais lhe dando um sermão. A cena com os pais era para ser dramática, mas ficou apenas piegas, o que me leva a crer que a autora não tem nenhum talento para escrever drama e foi bom não ter enveredado a história para esse lado. Para piorar tudo a escrita da Becky não ajuda, os acontecimentos são simplesmente jogados para o leitor, e tudo é contado de forma rápida demais. Capítulo completamente desnecessário e que não acrescentou nada.

Outro ponto que me incomodou é a escritora ter demorada tanto para revelar quem era o Blue. Só descobrimos quem é o garoto lá perto do fim do livro, e ainda porque o próprio Blue resolveu se identificar, o que me faz perceber o quanto Simon é incauto. (E acertei quem era o Blue bem antes, só eu que achei óbvio?) Mas gostei pra valer de Blue ser o Bram, e a cena que em que ele se revela para Simon é a melhor do livro, gostei bastante do diálogo entre os dois. É interessante o Blue ser um personagem negro, pois são poucas às vezes que vemos relacionamentos inter-raciais em romances. O ponto de triste é pela revelação ter sido tão tardia, nós acompanhamos pouco o namoro dos dois! Poxa, Becky! Porém queria saber mais como foi a revelação de Bram ser gay no grupo de atletas e como foi a reação deles ao descobrir que namorava outro homem, pois sabemos que existe preconceito grande envolvido na área dos esportes.

Alguns pontos ficaram em aberto e sinto que alguns personagens não tiveram final. Em diversos momentos foi falado sobre o irmão gay de Martin, mas em nenhum momento ele apareceu. O próprio Martin no final escreve um e-mail se desculpando por tudo que fez ao Simon, e ele nem ao menos responde, nem tem uma conversa final com o personagem! Outro momento de esquecimento de Becky foi com relação ao personagem Cal Price, o crush de Simon em que ele fica fantasiando a maior parte do tempo que seja Blue. No meio do livro Cal se revela bissexual e parece estar interessado por Simon, e quando Simon e Blue finalmente namoram Cal simplesmente desaparece da história! Eu queria ver ele demonstrando uma reação com relação ao namoro de Simon e Bram.

Enfim, todos esses pontos foram oportunidades perdidas da autora e que me decepcionaram um pouco. Fico com a sensação que o livro pode ter uma continuação. E aí, vocês gostariam de ver esses personagens voltando em um novo livro? Comentem abaixo e não deixem de visitar a página que a Intrínseca fez especialmente para a obra!

Sobre a autora!



Becky Albertalli é psicóloga, o que lhe proporcionou a oportunidade o privilégio de trabalhar com muitos adolescentes inteligentes, estranhos e irresistíveis, e por sete anos foi orientadora de um grupo de apoio em Washington para crianças com não conformidade de gênero. Mora em Atlanta com o marido e os dois filhos. Simon vs. é sua primeira obra.

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