quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

"Gente Pobre", de Fiódor Dostoiévski

Se muitas pessoas comentando sobre Gente Pobre este mês, saibam que é tudo culpa da Isa do canal Lido Lendo, que criou um projeto de ler Dostoiévski em ordem cronológica (clique aqui para saber mais). E apesar de já estar comprometido com outro o outro desafio literário meu, resolvi participar deste projeto da Isa também. Não quero me comprometer em segui-lo até o fim, mas se tudo der certo pretendo ler todos os livros propostos. Foi meu primeiro contato com literatura russa, e foi justamente com o primeiro livro de um grande autor.


Gente Pobre foi escrito em 1846, e como vocês devem imaginar pelo título, conta a história de pessoas muito humildes que viveram nessa época. Não sou a pessoa com o maior respaldo sobre esse momento da Rússia, então não vou focar muito nessa parte no que escreverei aqui. Não é a melhor estreia de um escritor que eu já li, mas com certeza eu gostei. Vamos ver a história pelo ponto de vista de dois personagens e as cartas que trocam entre si, mas não chega a ser completamente um romance epistolar. Inclusive, o livro não contém muitos detalhes da trama, o que cabe a nós leitores imaginarmos os pontos que não ficam muito esclarecidos.

O texto abaixo possui alguns spoilers do livro!

Os personagens principais são Makar, um homem de meia-idade que é funcionário público; e Bárbara, uma jovem costureira com um passado sofrido. Makar tem algum parentesco com Bárbara, que não ficamos exatamente sabendo qual é, e Bárbara é uma moça sozinha na vida e quase totalmente desamparada. O inesperado de tudo isso é que os dois são vizinhos, e na verdade se encontram pessoalmente poucas vezes durante o livro. Makar é um funcionário que está descontente com o local e cargo onde trabalha, e parece sofrer com um sério problema de complexo de inferioridade. E por isso até evita se encontrar com Bárbara, por pensar que os outros imaginam ele estar apaixonada pela moça. Dependendo de como você interpreta as cartas, realmente parece que Makar possui um interesse maior em Bárbara do que um simples amor familiar. Já Bárbara tem uma história de vida um pouco trágica. Perdeu o pai ainda muito cedo, quando era adolescente, e deixou ela e sua mãe sem eira nem beira, sendo acolhidos por uma irmã de seu pai, que era simplesmente uma mulher detestável.

Apesar de ser a típica história da menina sofrida, eu ainda considero essa parte do livro a melhor, e curiosamente é a única parte que não é contada por meio de cartas, sendo na verdade mais um flashback da personagem. É cativante ver como Bárbara descreve todos os detalhes da infância feliz que teve, como se sentia prisioneira na escola, e os sofrimentos que passou ainda quando o pai era vivo e metido em dívidas. Quando ela vai morar com sua tia é onde conhecemos Pokrovski, o personagem que mais simpatizamos no livro todo, um homem honrado, intelectual, que adora estudar, e que é colecionador de livros! É ao mesmo tempo tímido, extremamente organizado, desenxabido e não sabe lidar quando as pessoas zombam dele. É um personagem que facilmente podemos relacionar com alguém da vida real, e confesso que o único momento que fiquei triste lendo o livro foi quando ele morreu, ainda muito jovem. Pokrovski foi o único personagem que Bárbara se apaixonou de verdade. Um tempo depois a mãe veio a morrer também, logo a moça fugiu das garras dessa tia e acabou indo morar com Fédora, outra mulher que se torna sua colega e a trata muito melhor.

A primeira parte do livro é bem mais envolvente que a segunda, levando muitas questões sobre pobreza e miséria, porém da metade para o final o livro se torna uma grande repetição dessas lamentações. Chega um ponto que começamos a nos perguntar se Makar não é apenas um grande bocó e a Bárbara somente uma aproveitadora. Makar com aquela forma extremamente carinhosa de tratar Bárbara, beirando ao meloso, em alguns momentos chega a ser irritante e piegas. O que realmente nos faz pensar que ele sentia algo a mais por ela, apesar de nunca ter coragem de admitir. E Bárbara sempre aceita todos os presentes de Makar, reclamando que não lhe mande nada, no entanto sempre comenta sobre algum desejo ou necessidade sua. Me incomodou um pouco ela dizer que estava doentinha quando tinha que fazer algo, era uma saúde mesmo frágil ou uma desculpa? Claro que, isso pode ser muito mais um sinal de imaturidade da personagem do que realmente de oportunismo, mas o final onde ela termina se casando com o Sr. Buikov, um homem rico na história, não colabora com a visão que acabamos tendo da personagem. Makar se revolta frente a sua situação de gente pobre, mas mantém sua dignidade. Já Bárbara cede aos apelos da sobrevivência, algo que fica claro desde o início.

Enfim, é um livro com vários temas que valem a pena serem debatidos, a escrita de Dostoiévski é envolvente, e fiquei curioso para ler outras de suas obras! Espero conseguir dar conta de ler todas as obras proposta desse ano e conciliar com meu próprio desafio literário.

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